
Artrose do Joelho
O que é, os Sintomas e que Atitudes deve tomar.
Introdução
A artrose do joelho é uma doença crónica bastante comum, que afeta sobretudo a população mais idosa. É uma condição progressiva, de cariz degenerativo e inflamatório, estando relacionada com o desgaste das cartilagens do joelho. O sinal mais comum é a dor no joelho, que se pode acentuar com a prática de atividade física (desportos de contacto, subida e descida de escadas e movimentos repetitivos).
Em alguns casos, esta patologia pode tornar-se bastante incapacitante, afetando, em grande medida, a qualidade de vida dos doentes.
Se sofre desta doença, este artigo pode ser muito importante para si.
Saiba do que se trata, quais são os sintomas mais comuns e conheça os tratamentos que são recomendados para cada caso.
O que é?
A artrose do joelho, identificada no meio médico como gonartrose, é uma doença que se caracteriza pela perda progressiva de cartilagem de revestimento das superfícies articulares dos três ossos que compõem a articulação: fémur, tíbia e rótula.
Trata-se de uma doença de desgaste – wear and tear – com enorme impacto social, uma vez que é a patologia articular mais comum em adultos em todo o mundo. Na população com idade superior a 60 anos a prevalência é de 40%. Afeta mais as mulheres do que os homens. Ainda assim, os fatores pelos quais se verifica esta assimetria não estão verdadeiramente clarificados. Na maioria dos casos, é uma condição com atingimento bilateral, em virtude de estar associada a desgaste.
No entanto, existem várias situações em que tal não se verifica. Isso acontece quando o que está subjacente a esse desgaste tem origem nas seguintes circunstâncias:
- Alterações unilaterais do alinhamento do membro; (Fig. 1)
- Traumatismos prévios;
- Distúrbios da marcha;
- Doença de articulações adjacentes;
- Alterações de comprimento dos membros;

Os sinais e sintomas
A dor no joelho é o sinal mais recorrente. Esta patologia pode ter uma influência bastante negativa na qualidade de vida dos pacientes.

Os sintomas da gonartrose são:
- Dor;
- Derrame/Aumento do volume articular;
- Rigidez articular;
- Crepitação/Estalidos articulares;
- Atrofia muscular;
- Instabilidade articular;
- Bloqueio articular;
- Diminuição da velocidade de marcha;
- Deformidade progressiva;
Quais são as causas?
Excesso de peso e instabilidade articular podem contribuir para o aparecimento desta patologia.
Os fatores de risco para a artrose no joelho podem ser enquadrados em duas variáveis: as modificáveis e as não modificáveis.
Modificáveis:
- Eventos traumáticos do joelho/Atividades repetidas de sobrecarga;
- Profissão que implique traumatismos ou flexão em carga repetida do joelho;
- Défice muscular que condicione instabilidade articular;
- Excesso de peso;
- Síndrome metabólico (obesidade abdominal, dislipidemia, hipertensão arterial, glicose em jejum elevada);
Não modificáveis:
- Sexo feminino;
- Idade;
- Hereditariedade/Genética;
- Raça caucasiana;

Como é feito o diagnóstico?
Diagnóstico: avaliação clínica e exames complementares.
O diagnóstico da gonartrose começa através de uma correta avaliação clínica. Nesta fase, deverá observar-se o doente no seu todo (estrutura, marcha). Posteriormente, será feita a avaliação da zona afetada. São pesquisadas deformidades e desvios de eixo dos membros.
Segue-se a pesquisa de derrame articular, insuficiências ligamentares e arco de mobilidade da articulação. Também se realizam testes específicos de avaliação estrutural do joelho. Os meios complementares de diagnóstico têm, de igual forma, um papel fundamental. A avaliação inicial deverá ser feita com recurso a estudo por raio X, tanto do joelho como de todo o alinhamento dos membros inferiores.
O estudo por ressonância magnética poderá ter um papel relevante, quando o raio X não evidencia alterações significativas, face às queixas apresentadas pelo paciente.

Tratamento: cirúrgico e não cirúrgico
A artrose no joelho não tem cura, mas os sintomas podem ser minimizados.
Em termos de tratamento da artrose do joelho, os grandes objetivos passam por preservar uma boa capacidade funcional da articulação, mitigando as dores que advêm do desgaste da cartilagem.
A artrose não tem cura. Contudo, as medidas disponíveis para o seu tratamento podem proporcionar uma vida normal a quem sofre desta patologia.
O exercício físico, de baixo impacto, pode ser benéfico.
A atividade física pode ser uma boa forma de melhorar as queixas de um doente com artrose do joelho. O trabalho deverá ser realizado com uma periodicidade mínima de 2 sessões por semana e terá como base exercícios sem impacto. São recomendadas, por exemplo, atividades dentro de água, como a hidroginástica ou natação. Também são aconselhados exercícios de reforço muscular e de alongamento e retensionamento muscular.
Em doentes com um correto alinhamento da rótula e sem artrose significativa no compartimento anterior poderá ser sugerida a prática de bicicleta estática
Procedimentos não cirúrgicos
O tratamento conservador da artrose engloba medidas farmacológicas e não farmacológicas. É fundamental o compromisso do doente, para que estes procedimentos possam representar ganhos em saúde.
Medidas farmacológicas
Medicamentos anti-inflamatórios e analgésicos (primeira linha de tratamento e com evidência clínica clara).
A suplementação com condroitina e glucosamina – condroprotetores – tem demonstrado, em vários estudos resultados inconclusivos. Contudo, uma grande parte dos pacientes apresenta melhoria clínica significativa com este tratamento.
Fazem igualmente parte dos tratamentos controversos a infiltração intra-articular com ácido hialurónico e plasma rico em plaquetas (PRPs). Contudo, foi recentemente publicado um estudo prospetivo (2022, Lorenzo Moretti et al.) que demonstrou com robustez estatística, que a infiltração intra-articular de PRPs é uma ferramenta válida para a redução da dor e contribui para a melhoria de scores funcionais e de qualidade de vida em doentes com gonartrose.
A infiltração intra-articular de corticosteróides está associada a melhoria sintomática com resultados estatisticamente significativos.
Medidas não farmacológicas
No que respeita às medidas não farmacológicas, é fundamental definir uma estratégia para a perda de peso, quando assim se justifica. Os programas de perda de peso estão indicados em pacientes com índice de massa corporal superior a 25 kg/m2. Estes incidem num plano dietético e de exercício aeróbio sem impactos.
A fisioterapia também apresenta um efeito benéfico claro, sendo considerada umas das primeiras linhas de tratamento da artrose sintomática. Este tratamento visa restabelecer a mobilidade articular, reforçar a estrutura muscular e controlar o processo inflamatório.
De referir que, nos casos de artrose muito grave (grau IV), a fisioterapia não está formalmente indicada.
Procedimento cirúrgico: diferentes técnicas e intervenções
A cirurgia surge como opção de tratamento nos doentes que não melhoram com o tratamento conservador, ou seja, quando foram esgotadas todas as opções não cirúrgicas. No entanto, existem casos de artrose muito grave, com grande disfunção articular, que têm indicação cirúrgica desde o primeiro momento de avaliação clínica e imagiológica.
O objetivo final do procedimento é proporcionar uma excelente função, livre de dor, que permita ao paciente desenvolver as suas atividades diárias sem qualquer limitação. Com esse intuito, e de uma forma geral, a artroplastia total do joelho é a intervenção mais frequentemente selecionada (figura 4).

Através desta cirurgia, procurar-se-á, do ponto de vista biomecânico, corrigir os desvios e deformidades e substituir a superfície articular desgastada. Os resultados clínicos são excelentes nos doentes com indicação inequívoca para o procedimento.
Atualmente, estão à disposição tecnologias que permitem desenhar instrumentais específicos para cada paciente, em função da deformidade/desgaste articular, com recurso a imagens de raio X e ressonância magnética. Estas fazem um mapeamento do joelho do paciente e desenham blocos de corte, tendo em conta cada caso em específico. (figura 5).

Estas ferramentas encontram-se disponíveis de uma forma rotineira e têm como indicação mais formal a existência de grandes deformidades ósseas ao nível do fémur e da tíbia (habitualmente após traumatismo). Estes blocos específicos para cada paciente permitem diminuir a perda de sangue associada à cirurgia e o tempo de exposição cirúrgica, assegurando um posicionamento correto dos componentes implantados.
Em casos clínicos mais específicos, onde o desgaste se verifique apenas num compartimento do joelho (figura 6), poderá estar indicado outro tipo de procedimento.

Temos como opções disponíveis as osteotomias periarticulares e a artroplastia unicompartimental do joelho. Contudo, estas indicações são muito mais restritas e implicam, além de excelentes condições dos compartimentos que não estão envolvidos no desgaste de cartilagem, também uma correta função ligamentar.
As osteotomias são aplicáveis em doentes com deformidades angulares do joelho – na maior parte das vezes, joelho varo – que conduzem a um desgaste acelerado do compartimento sobrecarregado (figura 7).

A osteotomia da tíbia é um procedimento que visa corrigir essa deformidade, desviando o eixo de carga da zona mais desgastada para a zona sem lesão de cartilagem (figura 8).
Nas melhores séries, apresentam taxas de sucesso aos 10 anos superiores a 80% e poderão, em casos selecionados, representar uma excelente opção terapêutica.

As artroplastias unicompartimentais do joelho (figura 9) são igualmente uma opção válida quando o desgaste se localiza apenas num compartimento do joelho (habitualmente o compartimento medial).

Só uma percentagem muito restrita da população reúne os critérios para realizar este procedimento.
Em comparação com a artroplastia total do joelho, apresenta alguns pontos positivos:
- Recuperação mais rápida: com menos dor pós-operatória.
- Sensação mais natural da articulação: uma vez que preserva a cinemática do joelho, devido ao não sacrifício das estruturas ligamentares e preservação da cartilagem dos restantes compartimentos
Ainda assim, este procedimento apresenta taxas de revisão superiores à artroplastia total do joelho (substituição da prótese por um novo implante).
Posto isto, é essencial perceber que pacientes reúnem as condições ideais para serem submetidos a este tipo de intervenção.
O pós-operatório – tudo o que precisa de saber
Após a intervenção cirúrgica, deverá seguir as indicações especificamente delineadas para si pelo seu cirurgião.
Em condições normais, o paciente ficará internado numa unidade hospitalar durante 3 a 5 dias.
É importante iniciar-se uma mobilização precoce, com início de fisioterapia, no final da primeira semana, após a cirurgia. Habitualmente, é realizada marcha com carga e apoio externo de canadianas no segundo dia depois do procedimento cirúrgico.
No que concerne aos cuidados pós operatórios com a ferida cirúrgica, o tipo de encerramento da ferida operatória condicionará cuidados diferentes. Tradicionalmente, as incisões das artroplastias totais do joelho são encerradas com recurso a agrafos. Quando assim é, será necessário realizar cuidados de penso em centros diferenciados, em dias previamente determinados, garantindo que a ferida operatória permanece limpa e seca.
Contudo, atualmente temos recorrido a uma solução distinta dos tradicionais agrafos: o encerramento com sutura intradérmica reabsorvível e a colocação de uma rede com cola biológica (Figura 10). Esta forma de encerramento, além de permitir uma visualização direta da ferida operatória, mantém o isolamento da incisão e não carece de quaisquer cuidados de penso até à retirada da rede (cerca das 3 semanas pós-operatórias)

Durante as primeiras semanas após a cirurgia, é natural que persista algum desconforto articular. Nessas situações, pode existir a necessidade de medicação analgésica. Esta será prescrita no momento da alta.

Para diminuir as queixas de dor deverá:
- Aplicar gelo por um período aproximado de 15 minutos em intervalos de 2 horas;
- Elevar o membro para melhorar a sua drenagem;
- Realizar exercícios de ativação muscular e mobilização articular;

É igualmente expectável uma diminuição do apetite e sede nas semanas que sucedem à cirurgia. É fundamental manter uma alimentação equilibrada e níveis corretos de hidratação, com vista a assegurar uma boa perfusão dos tecidos e nutrientes para potenciar as condições biológicas de cicatrização.
A fisioterapia desempenha um papel fundamental no processo de recuperação da mobilidade e das atividades de vida diária.
Deverá ser seguido um plano ajustado a cada paciente, em que se promova um conjunto de processos:
- Correta recuperação muscular;
- Restituição de um padrão de marcha normal, com boas amplitudes articulares, para que o retorno a um dia-a-dia normal seja mais rápido e seguro.
As canadianas estarão dispensadas quando se reunirem boas condições musculares e o padrão de marcha for normal – o que ocorre habitualmente pelas 6 semanas.
No final do período de reabilitação (com um tempo não inferior a 3 meses), o doente deverá retomar as suas atividades. Ainda assim, com alguns cuidados. A título de exemplo, é fundamental que se limite a mobilização de cargas maiores e que se evite a execução de saltos ou impactos no membro intervencionado.
Conclusão
A artrose no joelho é uma patologia extremamente comum. Estima-se que atinja cerca de 40% das pessoas com idade superior aos 60 anos. O sintoma mais comum é a dor no joelho e as pessoas com excesso de peso tem uma probabilidade maior de sofrer desta doença.
A artrose não tem cura, mas, com o devido tratamento, a sintomatologia pode ser controlada. É essencial, para isso, que consulte um ortopedista.
A cirurgia está recomendada quando os procedimentos não cirúrgicos falham ou ad initium quando estamos perante uma artrose exuberante e muito incapacitante. O exercício físico, de baixo impacto – tal como a hidroginástica e a natação – pode ser um bom aliado nos casos de artrose mais ligeira.
Sofre de artrose no joelho? As dores são constantes?
Como é que lida com isso?
Se ficou com alguma dúvida, por favor entre em contacto.
Dr. Tiago Frada
OM 46913
